O corpo como matéria de novas investigações

Tamara Cubas diz que o corpo é algo muito inteligente e sensível, cheio de possibilidades que podem ser aplicadas à videodança

Em SC, bailarina ensina um novo caminho para a dança contemporânea

Joinville - A bailarina e videomaker uruguaia Tamara Cubas esteve em Joinville, no início de novembro, para ministrar oficinas de videodança promovidas pelo núcleo de dança contemporânea da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil. Formada pela Escola Nacional de Belas Artes do Uruguai, mestre em arte e tecnologia pela Escola de Artes de Utrech (Holanda), Tamara é co-diretora artística do Perro Rabioso, um grupo e espaço estabelecido desde 2002 para a criação e o intercâmbio entre artistas e agentes implicados na geração de cultura, que procura viabilizar projetos com enfoque multidisciplinar. É também diretora-geral do Festival Internacional del Cuerpo, la Imagen y el Movimiento e responsável pela área web da Red Sudamericana de Danza (www.movimiento.org). Como artista independente investiga as áreas da dança, do vídeo e da performance, focalizando sua atividade na combinação destas linguagens. O resultado de seu trabalho são obras multimídias ou videodanças. Nesta entrevista, Tamara fala da dança feita para a câmera e de sua atuação profissional, incluindo as importantes estratégias de intercâmbio que ajuda a manter, como o Perro Rabioso e a Red Sudamericana de Danza.

Entrevista / Tamara Cubas
Anexo - O videodança pode ser considerado um produto artístico recente e um novo espaço para criação e apresentação da dança?
Tamara - Ele remonta há muito tempo. Quando o cinema aparece, uma das primeiras coisas que filma é o movimento, muito mais do que uma situação. As primeiras experiências cinematográficas revelam que tem muita dança ali. Só mais tarde começamos a denominar videodança e não se sabe qual seria a data certa. É um campo de investigação muito aberto e o que interessa são suas possibilidades. Os festivais têm dado um espaço importante para essa linguagem específica, o que incentiva de forma significativa essa produção. Merce Cunningham é uma figura muito importante no desenvolvimento dessa linguagem. Da mesma maneira, alguns dançarinos começaram a formular perguntas sobre o que ocorre quando se mistura a dança com o cinema, com a imagem, com o vídeo? A partir daí, esse gênero começou a se definir. O videodança traz a dança, o corpo para uma matéria de investigação na qual se formulam perguntas de uma perspectiva distinta. É como você sair do seu país e olhá-lo de um outro lugar. Você pode olhar o seu corpo de um outro ponto. Wim Vandekeybus foi fotógrafo antes de ser coreógrafo. É interessante que ele cria a obra para o palco e depois ele faz uma versão para o vídeo. Depois disso, quando retorna ao palco, a obra muda porque ele consegue olhar, por meio do vídeo, o trabalho de outra perspectiva. Com a descoberta de outras coisas termina mexendo na obra. Essa dialética vídeo palco é muito interessante.

Anexo - Que conceitos artísticos estão por trás dessa produção?
Tamara - O videodança é algo híbrido e está dentro do gênero vídeo arte que é algo muito difícil de definir. O videodança também, até porque a dança contemporânea é difícil de conceituar. O contemporâneo se caracteriza por algo que não tem parâmetros, não tem limites, você pode pegar o que precisar para dizer o que deseja. Com o videodança ocorre o mesmo, o que importa é se você tem algo a dizer. Como você faz está em segundo lugar. Tem um vídeo, por exemplo, que não tem bailarinos, mas só pássaros. O cara editou de uma tal maneira que há uma coreografia, ou seja, não tem dança, mas é videodança! Para mim não é importante se é ou não é videodança. Trabalhar com o corpo requer muita sensibilidade, o conceito vem depois. É uma forma diferente de sentir o universo e muitas vezes só depois você consegue conceitualizar. É um discurso sobre o corpo, a colocação de um ponto de vista sobre o mundo através do corpo.

Anexo - A que fatores você atribui a crescente colaboração da câmera com a dança?
Tamara - São muitos os fatores. Um é que a mídia é algo muito cotidiano. A TV, o vídeo, a imagem está muito presente no dia-a-dia. Também a ferramenta, a câmera, está muito acessível, é possível investigar. Outra questão diz respeito ao pensamento contemporâneo em arte. Antigamente havia a obrigação de se definir: eu sou cubista, sou impressionista, danço Graham, e hoje não existem limites, você pode recorrer a diversas áreas artísticas para criar. Quando o homem se libera das limitações, começa a misturar, experimentar. O espaço em festivais e mostras é importante também. No primeiro festival internacional de videodança tivemos trabalhos produzidos no Uruguai, já na segunda edição se apresentaram cinco, ou seja, eles estimulam o desenvolvimento da linguagem.

Anexo - Qual a abordagem de seus workshops?
Tamara - Em primeiro lugar, procuro misturar gente que trabalha com a composição da imagem (da área de web design, fotografia, vídeo) com quem vem da área do movimento (dança, teatro, performance). Procuro mesclar e desenvolver um trabalho que coloque a pessoa em uma posição que é nova para ela, num lugar que modifique e amplie a percepção do corpo no espaço, que altere o olhar, que use a câmera como extensão do próprio corpo. É interessante que se entenda mais o que é o corpo, algo muito inteligente e sensível, cheio de possibilidades. Quanto da capacidade do nosso corpo usamos? Nós conhecemos o mundo com o corpo, a nossa experiência no mundo é corporal, você cai, você chora, é imediato. Mas ficamos muito presos ao raciocínio. Procuro trabalhar para que a informação chegue em todo o seu corpo, você sinta e tome uma decisão.

Anexo - Quem são os profissionais envolvidos na criação de videodança? A quem interessa essa produção?
Tamara - Algumas vezes a idéia de um videodança é gerada por um bailarino e outras por um videomaker. Ao assistir, você consegue perceber se veio de um desses profissionais ou se foi gerado em conjunto. Nos vídeos feitos só por um coreógrafo a tendência é exagerar no uso de efeitos. Ele faz aquilo que ele não pode fazer no palco então, por exemplo, ele cai 40 vezes, fica de cabeça para baixo... utiliza as possibilidades técnicas em demasia para fazer na tela o que não consegue fazer no palco. Por outro lado, quando é feito só por um videomaker a relação com a dança e o discurso do corpo se apresentam de modo frágil. Já quando o trabalho é realizado em conjunto, com o conhecimento e a comunicação das duas áreas, se torna mais interessante. A dança e o vídeo têm aspectos em comum, como o tempo e o espaço, que são as principais ferramentas. No tempo e no espaço ocorre o movimento. Mas a construção do tempo e espaço para palco e vídeo são diferentes. São percepções distintas. Sempre questiono o que é a dança e a quem interessa a dança. Denominamos a primeira edição de Festival Internacional de Videodança. Aqueles que tinham a ver com dança disseram "eu não tenho nada a ver com o vídeo", e os que trabalhavam com vídeo falaram o mesmo a respeito da dança. Então o público era composto apenas por curiosos. Concluímos que o que é importante para nós no videodança é o corpo, a imagem e o movimento e na segunda edição resolvemos mudar o nome para Festival Internacional do Corpo, da Imagem e do Movimento, o que ampliou a participação do público. Com essa mudança estratégica, alargando o espaço de investigação e o interesse, pessoas de áreas variadas, como comunicação, antropologia e sociologia, começaram a participar.

Anexo - Como funciona o Perro Rabioso ("cachorro louco" em português) e quais são suas principais realizações?
Tamara - Nós o chamamos de coletivo artístico e essa foi a melhor denominação que encontramos. Fomos procurando e descobrindo o caráter de nossa idéia. Criamos espaços para os conteúdos que desejamos trabalhar e para as interrogações que temos. É um grupo com diferentes interesses artísticos
(vídeo, música, dança, design, etc.), que se dedica a área de criação e gestão ou produção. Um grupo que entende a obra de arte como algo global e que reconhece na troca a possibilidade de fazer algo mais rico. Quando a gente produz um concerto de música de uma banda parte desse coletivo, pensamos em cada suporte ligado à música, como um vídeo promocional, o desenho gráfico, na arte que fará parte do local, em vários aspectos relacionados que, para nós, são tão importantes quanto a obra. É uma relação de colaboração, é uma experiência muito rica para os artistas. E é também algo político, a política tomada como ação. As realizações dizem respeito às criações dos próprios artistas que participam e de produções feitas também para terceiros. Fazemos coisas pontuais como o festival, temos uma gravadora de discos, organizamos ciclos de música acústica, ciclos de palestras com professores convidados, entre outras. Existe um projeto que chamamos de Pontes, criado para fazer um canal de comunicação com cidades de outros países, já que a cidade é algo mais próximo. Temos um acordo de colaboração com Porto Alegre para proporcionar a circulação de profissionais e grupos de dança, música, etc. Trabalhamos com quem queira realizar. A premissa é a troca.

Anexo - Como você descreve a participação do Brasil nas duas edições do Festival Internacional de Videodança do Uruguai?
Tamara - O primeiro foi algo simples feito pra conhecer o que é videodança, mas por meio dele descobrimos o mundo, encontramos pessoas como o Leonel Brum que realiza a mostra Dança em Foco no Rio de Janeiro. No segundo, a participação mais forte foi a do Brasil, com quatro obras. Isso foi o resultado de acordos e colaboração. Encontramos pessoas e trabalhos que compartilham conosco questões, interesses e pensamentos.

Tipo: 
Entrevista
Autor: 
Jussara Xavier
Medio: 
A noticia
Fecha: 
27 de noviembre
Año: 
2004